Janeiro 2025
Na análise deste mês é discutido o que é Dinheiro.
Notícias
- Eric Adams, antigo mayor de NY, lança uma moeda e captura $580M para colapsar logo depois.
The ordinary human being does not live long enough to draw any substantial benefit from his own experience. And no one, it seems, can benefit by the experiences of others. Being both a father and teacher, I know we can teach our children nothing…Each must learn its lesson anew.
— Albert Einstein
- NYSE anuncia planos para abrir os mercados 24/7. Até parece que andam a ler este relatório.
- Quando Villeroy de Galhau, o governador do banco central de França, não sabe o básico de como funciona a Bitcoin, mostra o quão cedo ainda estamos.
- Depois de no início de 2025 ter perdido 10%, nos últimos 6 meses esteve constante, mas agora em 2026 o índice dólar americano voltou a cair ~1%.
- Kevin Warsh será o futuro presidente da Reserva Federal.
- Novo fecho, ainda que parcial, do governo americano. Neste caso não se espera que voltem a ser os 50 dias de outubro de 2025.
- Falência do banco "Metropolitan Capital Bank & Trust". Apesar de ser um banco pequeno dos Estados Unidos, não deixa de ser um sinal da fragilidade de algumas instituições financeiras.
Análise
O que é Dinheiro? Uma pergunta tão simples mas que provavelmente muitos não saberão dar uma resposta. Isso é algo bastante comum numa sociedade onde podemos utilizar inúmeras tecnologias sem necessariamente ter de as compreender.
Money is the market good acquired exclusively to be exchanged for other goods and services
Para chegarmos compreender esta definição e conseguirmos responder à pergunta inicial, temos de começar o nossa viagem um pouco antes. Ligando a máquina do tempo e olhando para quando um ou vários elementos do um grupo caçavam, outros ficavam a tomar conta dos elementos mais novos, outros tinham a responsabilidade de ir buscar água, etc. No final o grupo tirava partido, como um todo, das várias especializações de cada elemento e partilhavam os recursos. Quando grupos se encontravam podiam trocar coisas entre si — roupa por comida, animais por ferramentas, etc. Este tipo de troca sem recurso a Dinheiro, é designada por “barter”. Os historiadores divergem se realmente alguma vez existiu uma sociedade e funcionava meramente neste tipo de economia. A razão principal é devido ao “coincidence of wants”. Só quando cada grupo tinha algo que o outro precisava e vice-versa, é que a troca podia acontecer. Rapidamente chegamos à conclusão que isto é um problema por ser um evento raro. O que se pensa é que havia sim Crédito. Este Crédito era mantido com recurso a confiança — para grupos de pequena dimensão era possível funcionar mas também limitava o acesso a “bens” ou “serviços”. Uma alternativa que podia acontecer era existir na realidade uma terceira parte na troca. Para o exercício, imaginamos que:
- Grupo A tem carne mas precisa de roupas para se protegerem do frio
- Grupo B tem laranjas mas precisam de carne para ajudar na alimentação
- Grupo C produz roupas mas devido aos seus maus terrenos precisam de laranjas
Podemos observar que só com os três grupos é que é possível realizar esta troca. Uma possível ordem seria o grupo A trocar a carne por laranjas com o grupo B. Depois o grupo A utiliza as laranjas para trocar pela roupa com o grupo C. E aqui chegamos à definição dada inicialmente. O grupo A utilizou as laranjas como Dinheiro, ou seja, serviram apenas para serem trocadas pela roupa.
O grupo A podia ter consumido as laranjas. Se tivesse tomado essa decisão, não tinham conseguido a roupa mas os seus níveis de vitamina C teriam aumentado. O meu objectivo é demonstrar que, apesar de qualquer “coisa” possa ser sempre consumida, se a escolha recair pelo consumo versus a utilização como Dinheiro, então essa “coisa” não é boa a ser Dinheiro.
No exemplo, as laranjas foram utilizadas como dinheiro. Se o grupo A na realidade tivesse que esperar algum tempo até conseguir trocar com o grupo C, algumas dessas laranjas poderiam apodrecer e assim não conseguir a roupa que tanto precisavam.
As laranjas são perecíveis, tem uma curta vida. O Dinheiro que melhor conseguir armazenar o valor do trabalho ao longo do tempo, funcionará melhor.
Provavelmente as laranjas nunca foram usadas como Dinheiro. Por várias partes do mundo, o Dinheiro teve várias formas/tecnologias ao longo dos anos. Desde conchas, vidro ou até mesmo pedras foram usadas como Dinheiro. Cada comunidade utilizava a sua melhor tecnologia para representar Dinheiro.
Dinheiro só pode ser utilizado como tal se existir quem do outro lado esteja disposto a aceitá-lo. Estamos de acordo que o Yen japonês é Dinheiro, no entanto em Portugal dificilmente será possível ser usado como tal, apesar de no Japão ser a moeda oficial. Quanto maior for a aceitação essa tecnologia for, melhor Dinheiro será.
Por exemplo, na ilha de Yap, pedras gigantes de calcário eram usadas como Dinheiro. Como aquele tipo de rocha não existia na ilha, era necessário deslocarem-se à ilha de Palau que ficava a 400km de distancia para minerar aquele tipo de rocha e trazer novamente para a ilha. Estas pedras podiam ser tão grandes e pesadas que por vezes nem se moviam aquando de uma troca — era feita uma troca verbal perante a comunidade para atribuir o novo dono.
Se a tecnologia utilizada como Dinheiro for de difícil portabilidade, cria entraves na sua utilização. Uma tecnologia que permita mover Dinheiro com facilidade e de baixo custo, desempenha um melhor papel.
A tecnologia utilizada para dinheiro, deve permitir dividir em parcelas mais pequenas e voltar a juntá-las. Se vacas fossem utilizadas como Dinheiro, após a sua morte para extrair a carne, não é possível voltar a reconstruir a vaca e a carne precisa de ser consumida.
Em Yap as pedras funcionaram até ao momento em que alguém com recursos a melhores tecnologias para minerar e transportar as pedras, inundou a ilha com estas pedras, desestabilizando o comercio e acabando por destruir aquela tecnologia como forma de Dinheiro.
A quantidade de Dinheiro em circulação deve permanecer controlada. A dificuldade na produção/criação irá impactar a sua quantidade em circulação. Se a quantidade aumentar, o dinheiro irá desvalorizar. Se o Dinheiro for consumido, o seu valor do resto poderá aumentar mas quem o consumiu deixou de tirar proveito dessa possível valorização.
Com o passar dos anos o mundo começou a convergir para metais como a tecnologia que melhor funcionava como Dinheiro — nomeadamente o ouro e a prata.
A falsificação ou manipulação sempre foram problemas, e com o ouro isso não deixou de existir (e.g. o denário romano). Desde reis a furarem as moedas para obter o material; alterarem a dimensão das moedas mas mantendo o valor; ou não utilizarem realmente ouro.
Quanto mais fácil, rápido e barato for comprovar, melhor essa tecnologia funcionará como Dinheiro.
A evolução continuou com a introdução da notas que tinham a promessa de poderem ser trocadas pelo seu valor em ouro - padrão ouro. Depois descobriram que dava jeito essa ligação não existir e é assim que estamos aos dias de hoje.
Depois desta viagem sobre uma história resumida sobre a tecnologia que é o Dinheiro, podemos começar a formalizar o argumento de que o Dinheiro não deve ser consumido mas sim usado apenas como meio de troca de serviços ou bens.
Apesar de termos um mundo cada vez mais interligado, nem todas as formas de dinheiro estão acessíveis a toda a gente. Ao mesmo tempo também é possível comprovar que qualquer coisa pode ser utilizada como tecnologia para representar Dinheiro. Tendo presente as várias propriedades identificadas do Dinheiro, significa que as diferentes formas variam no cumprimento das diferentes propriedades monetárias – existe portanto um espectro de Bom e Mau Dinheiro.
Bad money drives out good
— Gresham’s law
Quando temos duas formas de Dinheiro, vamos utilizar aquela que pior armazena o seu valor, guardando a boa forma para utilizar no futuro. Se tivermos valor armazenado em dois tipos de moedas, uma com inflação de 50% e outra de 7%, naturalmente iremos então utilizar a primeira. Um ponto relevante a ter em conta é que não é dito que o bom Dinheiro nunca é utilizado. Se é Dinheiro é para ser usado como troca por um bem ou serviço, como descrito inicialmente. Se for consumido, então é porque a sua função como Dinheiro tem menor valor do que a utilidade proveniente do seu consumo — o contrário não pode ser justificado economicamente.
Podemos olhar para o seguinte exercício de duas tecnologias iguais excepto nas diferenças mencionadas:
- Tecnologia A tem 1% de inflação e zero utilidade
- Tecnologia B tem 4% de inflação mas se for consumida, consegue capturar 90% do seu valor.
Apesar de que se a tecnologia B for consumida é possível extrair parte do seu valor, é uma pior forma de Dinheiro. O argumento dado é que se algo acontecer a ambas as tecnologias, a B ainda seria possível fazer algo com ela. Quem escolher a tecnologia B com esse argumento está a perder valor e a única justificação é saber que algo irá acontecer à tecnologia A, ou seja utiliza a tecnologia B como proteção. É defendido que a diversificação é algo importante mas não é menos verdade de que também é um conjunto de apostas com menor valor esperado, com a justificação de proteção contra ciclos negativos ou eventos catastróficos. Em termos de valor esperado puro, a diversificação implica abdicar de retorno em troca de redução de risco. O facto de algo poder ser consumido não é uma vantagem monetária; é uma propriedade concorrente. Num mundo onde cada vez mais a financeirização de activos é uma prática comum, o próprio Dinheiro começa a ser visto/adoptado de inúmeras formas: dívida, ações, metais preciosos, imobiliário, arte, etc – e esse é o principal problema. Essas inúmeras formas só são vistas como Dinheiro, pois o que existe hoje (fiat) não responde à propriedade da Escassez. Existe valor que é armazenado nessas formas, não por se achar necessariamente que sejam bons investimentos, mas como proteção do Mau Dinheiro. E como a função do Dinheiro é para ser consumido para adquirir bens ou serviços, o valor armazenado nos activos será afectado também pela liquidez necessária dos seus intervenientes e não só pelo resultado do activo. Se caminharmos para um Dinheiro mais sólido em todas as propriedades, todos os outros activos passarão a representar melhor o seu valor intrínseco.
Previsões
Vou acrescentar uma nova previsão, neste caso que o valor da dívida americana chegará aos $40T em 2026 – actualmente o valor encontra-se nos $38,5T. A previsão é baseada em:
- aumentos esperados nos orçamentos de várias partes do governo americano
- apesar do desejo, pela administração, de que os valores das taxas de juros sejam mais baixas, a Fed para já só prevê um corte para 2026
- continuação de valores de inflação altos
Indicadores
Apesar de a prata não ser um activo que estou a seguir o registo, mas como faz parte das minhas previsões em aberto, no dia 30 tive uma queda de 26%.
A Bitcoin voltou a ter um mês em terreno negativo, regressando aos valores de final de 2024. Neste momento já perdeu 38% desde o seu último máximo a 9 de Outubro de 2025.
| Activo | Janeiro 2026 | 1M (%) | YTD (%) | 2Y (%) | 5Y (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Bitcoin | $78.576,78 | -10,50 | -11,40 | +82,50 | +102,08 |
| Ouro | 4.887,07($/oz) | +13,13 | +90,37 | +139,06 | +186,52 |
| S&P500 | 6.939,03 | +0,83 | +1,17 | +43,20 | +78,53 |